Como 70 mil toneladas de arroz de comer entrou no país disfarçado de semente para não pagar imposto

Como 70 mil toneladas de arroz de comer entrou no país disfarçado de semente para não pagar imposto

O Estado moçambicano terá sido lesado em mais de 200 milhões de meticais num esquema de fuga ao fisco que envolve a importação de arroz sob o disfarce de sementes agrícolas. O Porto de Nacala é o epicentro da investigação.

O esquema das “sementes fantasmas”

Segundo uma investigação avançada pelo jornal Evidências, entre Junho de 2025 e Março de 2026, a empresa África Indústrias introduziu no país cerca de 71 mil toneladas de mercadoria declarada como “sementes para sementeira”. Esta classificação permite à empresa beneficiar de isenções fiscais totais, fugindo ao pagamento de direitos aduaneiros e IVA.

Contudo, a realidade desmentiu os papéis. Uma inspeção das Alfândegas ao navio MV Tan Binh 357, proveniente do Paquistão, confirmou que a carga não era semente, mas sim arroz normal para consumo.

Factos principais do caso:

  • Prejuízo estimado: Mais de 200 milhões de meticais em impostos não pagos.
  • Empresa envolvida: África Indústrias, ligada ao polémico grupo “Royal”.
  • Modus operandi: Uso da posição pautal 10061010 (isenta) para importar arroz comercial.
  • O mistério: Não há registo de campos agrícolas na província de Nampula que justifiquem a utilização de tamanha quantidade de sementes.

AT sugere “filme” para justificar silêncio

De acordo com a mesma fonte, a Autoridade Tributária (AT) tem-se mostrado esquiva. Embora tenha confirmado a apreensão de 25 mil toneladas no navio mais recente, a instituição recusa-se a comentar o paradeiro das restantes 46 mil toneladas que entraram anteriormente em outros três navios.

Documentos consultados mostram divergências graves entre os “Documentos Únicos” submetidos em Moçambique e os Bill of Lading (conhecimentos de embarque) originais, sugerindo que a descrição da carga foi manipulada para enganar o fisco.

Um escândalo de “alto nível”?

A falta de selos de apreensão nos armazéns da empresa e a rapidez com que algumas cargas foram libertadas levantam suspeitas de proteção de alto nível. Enquanto o processo corre nos tribunais, o setor agrícola questiona: se eram mesmo sementes, por que não há sinais de produção intensiva que as absorva?

O jornal Evidências tentou obter esclarecimentos da África Indústrias sobre o destino das 71 mil toneladas, mas, até ao momento, a empresa mantém o silêncio sobre o paradeiro do “arroz” que entrou no país sem pagar um tostão de imposto.

Imagem: DR

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