O futuro com Samora no retrovisor: a educação moçambicana na encruzilhada da nova era
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RAIMUNDO J. MAPANZENE
OLHAR para o sistema educativo moçambicano contemporâneo obriga-nos, inevitavelmente, a fazer um exercício de retrospectiva. Esta semana, enquanto escrevo e publico estas linhas, o país silencia-se para assinalar os 40 anos da tragédia de Mbuzini. Quatro décadas após o fatídico 19 de Outubro de 1986, a evocação da memória de Samora Machel deixa de ser um mero acto de saudosismo oficial para se transformar num grito de urgência sobre o rumo do nosso desenvolvimento.
Na alvorada da independência, o desígnio do primeiro Presidente era claro: moldar o “Homem Novo”, um cidadão patriota, descolonizado mentalmente e focado no progresso colectivo. Naquela visão vanguardista, a educação e a cultura eram as armas mais poderosas para a emancipação de um povo. A máxima era marcadamente prática: unir o estudo à produção para edificar uma nação economicamente auto-suficiente.
Volvidos quarenta anos, a Nova Era confronta-nos com uma realidade radicalmente distinta. O romantismo revolucionário foi engolido pelas dinâmicas da globalização, pelo advento da Inteligência Artificial e pela mercantilização agressiva do ensino. Como investigador-actor também na área, recorro aqui ao potencial analítico da Sociologia da Educação para decifrar este cenário. Esta poderosa área do saber oferece as ferramentas necessárias para desmascarar como as instituições de ensino reproduzem ou desafiam as estruturas de poder, expondo que o fosso pedagógico entre as escolas urbanas e o meio rural se acentuou, transformando o direito universal à educação num privilégio geográfico.
No campo, o drama das salas de aula debaixo das árvores e a info-exclusão digital deitam por terra a promessa macheliana de equidade.
O abandono escolar, particularmente o feminino – onde dados alarmantes indicam que cerca de 70% das raparigas grávidas abandonam os estudos -, reflecte uma falha sistémica na protecção social.
Sob a perspectiva sociológica, o Ensino Técnico-Profissional, herdeiro natural do lema de produzir com as próprias forças, navega à deriva, divorciado das necessidades reais de industrialização e dos mega-projectos que operam no país. Educamos para o desemprego ou para o funcionalismo burocrático, perpetuando a dependência económica que Samora tanto combateu.

A síntese inadiável: unir as raízes antu às TICs para a auto-suficiência
Contudo, o retrovisor evocado por este quadragésimo aniversário em Mbuzini não deve servir para cultivar a nostalgia estéril, mas para resgatar a bússola ética. Como bem sugerem intelectuais e académicos moçambicanos contemporâneos, o caminho para o futuro passa por uma síntese corajosa entre o bilinguismo cultural e as TICs. Não podemos abraçar a modernidade digital rejeitando as nossas raízes Bantu; a tecnologia deve servir para digitalizar e elevar as línguas nacionais, garantindo uma alfabetização inclusiva nas zonas rurais.
Nesta encruzilhada, importa resgatar a célebre premissa samoriana de que “a cultura é o sol que nunca desce”. Machel entendia a identidade cultural não como um adorno folclórico, mas como a seiva viva da Unidade Nacional.
Ao transmutarmos esta máxima para o século XXI, percebemos que iluminar o país com este “sol” exige que as novas plataformas digitais e os currícula bilingues funcionem como espelhos da nossa moçambicanidade.
Uma educação que ignora a riqueza linguística local para se render cegamente aos algoritmos globais condena o seu povo a uma nova forma de penumbra e submissão cultural.
Ajustar os espelhos: resgatar a ética de Samora para mudar o futuro
Para que a educação seja, de facto, o motor da nossa independência económica, urge devolver a dignidade moral e material ao professor, o guia histórico da transformação social.
Fixar docentes qualificados no interior através de incentivos reais, democratizar o acesso às tecnologias e reformular o currículo com literacia financeira são passos inadiáveis.
Felizmente, o pulsar cultural mantém-se vivo. Saudamos a incrível iniciativa da Presidência da República de Moçambique ao lançar o concurso para uma antologia de 40 textos nas modalidades de poesia, contos e crónicas – com inscrições abertas até 19 de Novembro de 2026 -, provando que a escrita continua a ser trincheira da nossa memória.
O “Homem Novo” do século XXI não pode ser uma cópia acrítica de modelos estrangeiros. Deve ser um cidadão moçambicano global: tecnologicamente audaz, economicamente independente, mas profundamente ancorado na identidade e no sentido de justiça social que outrora desenharam a nossa liberdade.
Quarenta anos depois de Mbuzini, a educação moçambicana precisa, urgentemente, de ajustar os espelhos: olhar em frente sem perder de vista as lições da história.





