IA NO JORNALISMO MOÇAMBICANO: Entre a ajuda e o medo de perder a criatividade
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CARLA MANHIQUE
INTELIGÊNCIA Artificial (IA) é a expressão mais falada nos últimos anos em todo o mundo, havendo, entretanto, um misto de sentimento no seio das pessoas, umas a considerar que a ferramenta veio facilitar a realização de diversos tipos de tarefas e outras a defender que a mesma pode promover a preguiça.
A ferramenta já vem sendo usada há bastante tempo noutros países. No caso de Moçambique ou mesmo de África, a tecnologia é recente e traz consigo as suas surpresas e curiosidades.
Porque a tecnologia é também usada na área de comunicação, o “Notícias ouviu diversas personalidades ligadas à área, entre jornalistas e académicos, que consideram a ferramenta incontornável nas redacções moçambicanas.
A título elucidativo, a Escola Superior de Jornalismo criou uma disciplina para ensinar a usar a IA, porém, a Televisão de Moçambique (TVM) ainda não tem uma política definida para a sua aplicação. A agência Lusa já a utiliza para mudar a rotina de trabalho, enquanto o jornal domingo admite que a ferramenta é usada por mais de cinquenta por cento dos jornalistas como muleta na produção dos seus artigos.
No jornal Notícias, a IA é vista como ferramenta de apoio e não como ameaça directa da actividade genuína de jornalismo, desde que esta seja usada de forma responsável.
De uma forma geral, nas declarações que deram origem a esta reportagem pode-se notar algum consenso segundo o qual a IA pode ser instrumento de apoio do trabalho do jornalista, mas não deve substituir o pensamento crítico, a escuta apurada, a verificação dos factos e a alma jornalística.
Ela corrige, resume, organiza arquivos, detecta incongruências e até sugere fontes, mas também pode gerar preguiça, plágio, desinformação e um texto perfeito proveniente de quem nada sabe. É este duplo rosto que coloca o jornalismo moçambicano perante a sua maior prova dos últimos anos: como usar a IA sem perder a inteligência do jornalismo.
Meio de apoio e não de substituição

O “Notícias” vê a Inteligência Artificial como ferramenta de apoio, não como ameaça directa, desde que seja usada com responsabilidade, na medida em que o jornalismo não é só produzir textos, é também investigar, contactar fontes, confirmar factos e interpretar os acontecimentos, segundo considerações do chefe da Redacção deste matutino, Paulo da Conceição.
“É nesse processo que reside o valor do trabalho jornalístico, que não pode ser simplesmente substituído pela geração automática de textos. Por isso, o nosso desafio é aproveitar as potencialidades da IA sem comprometer o rigor, a credibilidade e a responsabilidade editorial. A tecnologia deve ajudar o jornalista a trabalhar melhor, e não dispensá-lo das suas responsabilidades profissionais”, afirmou.
O maior risco que a máquina coloca, admitiu, não é a perda de postos de trabalho nem o plágio em si, mas a desinformação. A IA pode produzir conteúdos com uma linguagem convincente, dados aparentemente credíveis e uma estrutura semelhante à notícia, sem que a informação seja verdadeira.
O perigo é que esses conteúdos sejam aceites como verídicos e cheguem ao público sem que a sua origem tenha sido devidamente confirmada, colocando em causa o seu principal activo, que é a credibilidade.
“Não podemos ignorar outras preocupações, como o respeito pelos direitos de autor, plágio, protecção das fontes, possíveis implicações jurídicas e transformações que a ferramenta poderá provocar no mercado de trabalho jornalístico”, referiu.
No “Notícias”, secundou, há consciência de que esta realidade exige reflexão e preparação, e de que o uso desta ferramenta é ainda matéria de discussão. Reconheceu a necessidade de aprofundar os mecanismos de orientação e controlo da sua utilização.
Mais do que recear a tecnologia em si, o responsável mostrou-se preocupado com a possibilidade de a mesma ser utilizada sem os cuidados necessários, comprometendo o rigor da informação e a confiança dos leitores.
Aconselhou os jovens jornalistas a aprender a dominar a ferramenta, mas não permitir que ela pense por si, porque a responsabilidade de ser jornalista continuará a ser do repórter.
A tecnologia, admitiu, vai continuar a evoluir, e o jornalista que souber acompanhá-la terá certamente novas oportunidades, sem descurar a credibilidade profissional que se conquista com o trabalho, com o rigor, com a honestidade e com a responsabilidade.
Risco de dar tiro no próprio pé

O JORNAL domingo vê a IA com dois sentimentos: receio de que seja mal-usada e convicção de que, bem usada, pode ajudar o jornalista no dia-a-dia, sobretudo no jornalismo investigativo.
Almiro Santos, director editorial do semanário domingo, disse que o conselho aos repórteres é usar a IA como uma ferramenta de apoio, não para se substituírem.
Precisou que a inteligência artificial ainda se está a afirmar e a aperfeiçoar. Não é desejável que um jornalista acredite, sem confrontar, nas informações que a IA dá.
Na perspectiva do domingo, segundo Santos, hoje é possível notar que textos feitos pelos repórteres têm nível de exagero próprio da IA, acrescentando que qualquer editor pode copiar um texto para o Meta e aferir o nível de utilização da IA.
“Isso já é possível fazer. O que temos estado a descobrir é que, em textos que recebemos para republicar, mais de 50 por cento é gerado por inteligência artificial. Isso preocupa, porque se os jornalistas entregam o trabalho à máquina, os grandes proprietários dos jornais vão achar que não vale contratar um jornalista, basta um editor com IA para gerar textos. Estamos a dar um tiro no pé. Substituindo-nos a nós próprios por inteligência artificial”, lamenta.
A defesa do domingo é que o texto jornalístico tem de ter alma do repórter, e “não há nenhuma inteligência artificial que gere alma”.
Aconselhou o jovem jornalista a usar a IA como muleta para obter dados, “background” e inspiração para uma investigação mais séria, mas nunca como fonte definitiva, considerando que tudo tem de ser confrontado e verificado, tal como qualquer outra fonte.
Defende ainda uma formação para jornalistas e cidadãos aprenderem a desconfiar e a distinguir o que é verdadeiro do que é gerado por IA, além de uma regulamentação urgente no país.
DIRECTO: Antídoto contra o engano

A TELEVISÃO de Moçambique afirma que o maior risco para a gestão seria um profissional usar a IA para fazer o trabalho e fingir que foi feito por ele. Pascoal Malate, director de informação da TVM, disse que na sua Redacção há pouco espaço para isso, uma vez que o trabalho é testado na prática.
No primeiro dia, referiu, o estagiário senta e escreve à vista e, sobretudo no directo, a segurar o microfone e a falar, aí a IA não pode substituir. Se o que fala não condiz com o que escreve, formula ou narra, gera desconfiança. Por isso, não há muito espaço para engano”, elucidou.
Malate afirma que, oficialmente, a TVM ainda não utiliza a ferramenta, visto que a natureza do trabalho é a confrontação de factos no terreno. A IA não diz como um dirigente pensa sobre uma determinada área nem consegue confrontar fontes, mas pode ir buscar informação antiga para comparar com os dados actuais, sem substitui esse trabalho.
“Ela não vem substituir a inteligência humana, porque não responde com precisão, mas busca informação feita pelo homem para elucidar o que se pretende abordar”, disse.
A posição central é ajustar a IA à inteligência humana, não o contrário. Para o escriba, a IA pode gerar preguiça nas pessoas ou flexibilizar o trabalho, mas não deve descurar o pensamento crítico, tudo o que ela disser deve ser duvidado e confrontado com a realidade.
Afiançou que a TVM nunca vai publicar informações geradas por esta ferramenta, realçando que na escola aprendeu-se que o jornalista confronta as fontes, traz evidências e só depois publica-as.
Relativamente aos estagiários, Malate disse que passam por um processo de acompanhamento, no primeiro dia, sentam, escrevem e o editor supervisiona.
“O primeiro dia conta muito para nós avaliarmos como ele escreve. É importante que todas as instituições façam isso porque podemos ser enganados: encontrarmos profissionais que estejam na empresa há mais de 15 e 20 anos serem trocados por alguém que só chegou, sentou e mandou a IA fazer o trabalho por si”, vincou.
Responsabilidade editorial é insubstituível

A TECNOLOGIA não está integrada de forma sistemática no trabalho diário na Redacção da TV Sucesso, cuja ideia é que a IA pode apoiar o jornalista, mas nunca decidir o que é notícia nem substituir a responsabilidade editorial.
José Gabriel, editor sénior, reconheceu que a IA já está a mudar o jornalismo em várias partes do mundo e seria pouco realista ignorar essa transformação, porém, na TV Sucesso, o seu uso ainda é pontual, empírico e marginal.
Segundo afirmou, a aparência profissional não é prova de verdade, ajuntando que cada dado, citação, documento e fonte tem de ser confirmado fora da ferramenta, de preferência junto de fontes primárias e de uma segunda independente.
O repórter disse ainda que a IA só pode ser ameaça se a redacção aceitar a sua velocidade em troca de rigor, identidade e contacto com as comunidades.
Neste contexto, apelou aos jovens jornalistas a aprender a usar a ferramenta, mas não lhe entregar o seu julgamento, utilizando-a para ganhar tempo, não para evitar o terreno, as fontes ou as perguntas difíceis.
Não perder o elemento genuíno

A RÁDIO Moçambique encara a Inteligência Artificial como oportunidade e, ao mesmo tempo, como factor de risco. Saimon Kábwe, director de Informação da RM, explicou que o órgão já começou a fazer debates, sobretudo na área de produção, que envolve os programas a vários níveis, de todos os sectores editoriais e também a informação.
“Ao nível do Conselho de Administração, do pelouro de Produção, já fomos instados a fazer uma reflexão em torno da IA e do seu uso, por exemplo, nas nossas emissões e produção informativa. Até aqui, a Rádio assume que a IA é incontornável, pelo que temos de nos adequar ao seu advento”, vincou.
Revelou que a Rádio já iniciou reflexões e equipas de trabalho para criar uma política interna de uso, que vai abranger informação, emissões e até a política musical, como cota de música feita com IA, inserida nas suas emissões.
A preocupação central é não embelezar textos e emissões à custa da ingenuidade da produção, vincando que quando se perde a genuinidade de uma produção por causa da inteligência artificial, “já não somos nós. No jornalismo e na comunicação, o elemento genuíno é fundamental”.
O jornalista narrou que, mais do que regular o seu uso, o desafio maior é detectar produtos gerados por IA que chegam à nossa Redacção, como áudios, textos e músicas. A RM quer investir numa plataforma que identifique o nível de uso da ferramenta. A ideia é definir uma política interna que estabeleça limites de, no máximo, 40 por cento. Caso o produto final seja 100 por cento IA, a solução será o descarte.
Perante um áudio suspeito de um governante, a primeira regra continua a ser a tradicional, confirmar com a fonte e só depois recorrer à ferramenta técnica.
Aconselhou os jovens a usar a ferramenta para a correcção ortográfica, pensar num título mais chamativo, ajudar a definir a abordagem ou identificar fontes. Mas também desaconselha ir ao terreno e entregar tudo à IA para produzir a reportagem ou crónica. “Aí falta o essencial, não sei se essa crónica, de facto, tem suor”, citou.
Reduzir a margem de erro

A AGÊNCIA Lusa em Moçambique não vê a IA como um bicho de sete cabeças, mas como apoio para retirar ao jornalista o trabalho repetitivo, onde a probabilidade de erro humano é maior.
O delegado da Lusa, Paulo Julião, apontou como exemplos a revisão de textos para detectar incongruências e discrepância dos números, gerar tabelas e classificações automaticamente, resumir documentos externos de 100 páginas para extrair destaques, monitorizar noticiários de rádio e “varrer” “sites” oficiais à procura de alterações.
Argumentou que o texto passa por três pares de olhos humanos antes de ser publicado, afirmando que a IA não corrige nem gera notícia, apenas detecta, alerta, e o jornalista é que investiga e decide.
Na sede da Lusa, em Lisboa, por exemplo, Julião disse estar em curso a criação de equipas tecnológicas e aplicações para o trabalho rotineiro do jornalista.
Citou o exemplo de jornalistas desportivos que têm de andar sempre com tabelas e classificações, seja de que modalidade forem, em todos os países.
Falou de jornalistas, revisores e editores, explicando terem uma planta e estrutura em desenvolvimento em Lisboa, que faz o cálculo e gera as tabelas automaticamente.
A IA, fundamentou, pode ajudar a fazer contas que o humano pode falhar. “A IA não vai falhar a transcrever e somar números que estavam numa tabela em papel. Porém, nós corremos o risco de falhar. Portanto, isto é uma ferramenta para nos dar maior credibilidade, desde que saibamos distinguir a função de cada um. O jornalista é o autor, escreve, define o lead, título, citações e tudo o resto”, enumerou.
Por isso, a Agência ainda não tem selo ou aviso de uso de IA, tal como ninguém escreve que um texto foi revisto pelo corrector do Word. A regra é clara: a Inteligência Artificial não substitui os jornalistas e nunca os vai substituir.
A IA pode ser as duas coisas: uma ameaça ou aliada ao jornalista, dependendo do uso ou falta de regulação. Dá-se o exemplo de um carro de alta cilindrada, que, com cuidado, é uma mais-valia, sem cuidado, um risco.
O jornalista defende que falta regulação, nacional e internacional, sobretudo, para preservar os direitos de autor e definir limites.
Apela aos mais novos para que não utilizem a IA de forma massiva para fazer o trabalho por eles, pois isso é matar o próprio emprego; quem manda vai perceber que não precisa de pagar um salário por isso.
Ignorância quântica é o maior malefício

O DOCENTE da Escola Superior de Jornalismo, Sérgio Langa, compara a IA ao Direito, afirmando ter começado como algo de poucos, para hoje atravessar todas as áreas na migração do analógico ao digital.
Entre os benefícios, destacou a rapidez, apoio à docência, correcção de avaliações e à organização de bibliotecas digitais.
Mas alerta para o seu maior malefício, que apelidou “ignorância quântica”, no qual o estudante pode responder bem e ter nota positiva sem, de facto, saber, porque o professor perdeu o controlo sobre quem realmente aprendeu.
“A ignorância quântica permite isso e é uma das grandes desvantagens que constatamos neste contexto de inteligência artificial no sector da Educação. Há um determinado controlo que o professor não tem sobre esses aspectos, pois, para ter, deveria avaliar o estudante presencialmente”, vincou.
Quando um professor dá um trabalho específico para o estudante investigar, referiu, se ele tiver o domínio sobre a ferramenta por via de softwares pode muito bem fazer uma pesquisa rápida e colocar o máximo de informação e fechar o trabalho em menos de 30 minutos. Se o fizer e entregar ao professor, pode ver que está bom e perfeito.
O académico defende a necessidade de o docente ter um mecanismo de verificação que o permita saber se, de facto, o estudante que fez trabalho tem conhecimento sobre o tema e está em condições de defender ou não.
No curso que dirige, Langa disse que foi aprovado um novo currículo que inclui uma disciplina de Inteligência Artificial aplicada à Publicidade e Marketing/Jornalismo. O objectivo não é proibir, mas dar literacia tecnológica e digital ao estudante, para ele saber usar a IA de forma responsável sem se perder nela.
Para ele, a IA não deve tornar o jornalista ocioso ou preguiçoso do ponto de vista racional. A entrevista jornalística comummente é semi-estruturada e semi-aberta, a próxima pergunta nasce da resposta anterior. “Isso a IA não faz, mas pode auxiliar”, sustentou.
A tecnologia pode servir para inspirar e preparar o jornalista, por exemplo, a pesquisar sobre gás antes de entrevistar um especialista, mas deve continuar a ouvir, pensar, adaptar e a verificar.
Nas avaliações, defende que a IA deve ter pouco espaço, sustentando que o professor tem de criar provas em que o aluno, mesmo com telemóvel na mão, só responda se realmente aprendeu.
